Dormir sobre o Assunto - Perfomance Artística (destaque)

Toda a arte é atópica

 

Partindo do pressuposto de Roland Barthes (O Prazer do Texto, 1996), segundo o qual o texto, no momento da sua produção, é um sistema desordenado que precisa do leitor para organizar os seus sentidos e, posteriormente, estabelecer inferências, estendemos o mesmo pressuposto para o domínio de toda a obra de arte. O jogo entre o seu autor e o leitor constrói-se pelo preenchimento de espaços vazios que existem dentro da própria essência do objeto artístico. Se o ato da leitura faz despertar a apreensão imediata e sensível das coisas, distanciando-se de doutrinas de linguagens ideológicas, então qualquer obra coloca esse desafio a quem a “lê”. O estímulo da descodificação é fascinante, mas também árduo e requer a aquisição de competências básicas e treino. 

A receção depende de cada um, do seu olhar, dos seus movimentos intrínsecos. Jauss (A Literatura como Provocação - História da Literatura como Provocação Literária, 1993) explica bem este fenómeno, quando advoga que obra de arte literária só será efectiva, só será re-criada ou “concretizada”, quando o leitor a legitimar como tal, relegando para plano secundário o trabalho do autor e o próprio texto criado. Para isso, é necessário descobrir qual o “horizonte de expectativas” que envolve essa obra, pois todos os leitores investem certas expectativas nos textos que leem em virtude de estarem condicionados por outras leituras já realizadas, sobretudo se pertencerem ao mesmo género literário. O contacto frequente com o preenchimento de espaços do objeto artístico [seja ele qual for], fazendo emergir a razão crítica e a semiótica do(s) textos(s), é condição essencial para fazer despertar essa capacidade nos nossos jovens.

É neste pressuposto de que é possível construir a partir da atopia que o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra trabalhará com as turmas do projeto, numa programação sequencial, no sentido de favorecer leituras simbólicas do mundo artístico. Porque a arte do nosso tempo se constrói sobre a arte de outros tempos, porque o conhecimento do passado pode permitir uma melhor compreensão do presente e a atenção ao presente pode ajudar a revelar o passado, tendo especialmente em conta a cidade, e o seu reconhecimento enquanto património mundial da Unesco, deambulamos pelo território e viajamos entre tempos diferentes. Valorizaremos o encontro pessoal, único, e imprevisível com a obra de arte mas não prescindimos do exercício da palavra a partir e sobre ela, lembrando sempre que o objeto artístico está para além de qualquer discurso, é sempre outra coisa.

Promovemos olhares múltiplos sobre a contemporaneidade, através da experiência multidisciplinar da arte (entre as artes visuais, a música, o teatro…), e a familiarização com as práticas artísticas do nosso tempo que possa contribuir para uma maior disponibilidade perante a diversidade e a diferença. Que a estranheza possa ser impulsionadora da curiosidade e do exercício crítico, ou seja da análise séria porque fundamentada, e não se fique pela frequente reação de rejeição perante o que não se conhece.

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